Projeto de lei contra adultização infantil ganha destaque após vídeo viral
Discussão no Senado ocorre em meio a debate público sobre preservação da infância e influência das redes sociais

A pauta da adultização de crianças e adolescentes ganhou ampla visibilidade depois que um vídeo do influenciador digital Felca se espalhou pelas redes sociais, trazendo à tona a forma como a infância tem sido sexualizada e exposta a conteúdos impróprios. A repercussão despertou atenção para um problema antigo, mas que encontra nas plataformas digitais um terreno propício para se intensificar. Diante da mobilização social, o Senado Federal se organiza para apreciar um projeto de lei que busca regulamentar a exposição de menores na internet e resguardar seu desenvolvimento integral.
O que significa 'adultização' e como reconhecê-la?
De acordo com a psicóloga Ana Karolina Silveira, professora da Universidade Tiradentes (Unit), adultizar uma criança é atribuir a ela funções e responsabilidades que não condizem com sua fase de crescimento. “Isso pode se dar de forma prática, quando um adolescente, por exemplo, assume os cuidados de irmãos, ou de maneira simbólica, quando passa a ser tratado como um adulto em miniatura, sem espaço para viver a infância plenamente”, explica. Esse processo, segundo a especialista, antecipa pressões emocionais e sociais próprias da vida adulta.
Entre os sinais que indicam adultização estão a ausência de tempo para brincar, a adoção de comportamentos ou linguagem típicos de adultos e a sobrecarga emocional por responsabilidades que não lhe cabem. “Essas situações podem gerar quadros de ansiedade, insegurança e até depressão. Do ponto de vista cognitivo, estudos já apontam prejuízos em memória e atenção. No campo social, crianças e adolescentes adultizados muitas vezes se sentem deslocados entre colegas da mesma faixa etária, o que dificulta as interações. Porém, é principalmente no ambiente digital que esse processo se acelera, pela exposição precoce a conteúdos e estilos de vida adultos”, aponta Ana Karolina.
Onde o fenômeno se manifesta
Embora a internet seja hoje o principal espaço de discussão, a adultização acontece em diversos contextos. No lar, pode surgir com a sobrecarga de funções; na escola, por meio da cobrança exagerada por resultados; e no ambiente digital, pela exibição de padrões de estética e comportamento. “As redes sociais potencializam essa questão ao propagar a ideia de corpos perfeitos, estilos de vida adultos e sexualização antes da hora”, observa a psicóloga. Ela lembra ainda que, dependendo da realidade socioeconômica, as formas de adultização podem variar, indo da exigência prática à pressão estética.
Para a especialista, prevenir esse processo exige olhar atento aos sinais e permitir que cada etapa da vida seja vivida no seu tempo. “Os pais precisam estabelecer limites, mas também assegurar espaço para o brincar, para os erros e para um amadurecimento progressivo”, afirma. Já a escola deve atuar como um ambiente de proteção, valorizando não apenas a aprendizagem formal, mas também a convivência, a criatividade e o direito à infância. “Esse período deve ser compreendido como uma fase fundamental do desenvolvimento, não como uma preparação antecipada para a vida adulta”, acrescenta. Para ela, a sociedade em geral também precisa valorizar a infância e cobrar limites tanto da mídia quanto das redes sociais e de todas as formas, explícitas ou sutis, de exploração infantil.
Políticas públicas e avanços legais
A formulação de projetos de lei sobre o tema é considerada crucial, pois reconhece o problema e estabelece mecanismos de proteção. Embora o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) já assegure princípios importantes, ainda há lacunas, especialmente no que diz respeito à regulamentação do ambiente digital. Na visão da especialista, as políticas públicas devem atuar em diferentes frentes: apoiar a escola como espaço seguro, oferecer orientação às famílias e estabelecer regras mais claras para conteúdos e campanhas de conscientização voltadas à sociedade.
Por: Laís Marques
Fonte: Asscom Unit
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