Brasil corre o risco de perder um animal presente em sua história desde o início da colonização. Pesquisadores de universidades federais, centros de pesquisa e organizações de proteção animal no Nordeste e no Sudeste do país alertam para o colapso da população de jumentos, especialmente da raça nordestina, ameaçada de extinção até o fim da década.
Dados reunidos por equipes da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), da Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (Ufape) e de entidades internacionais, com base em registros do IBGE, do Ministério da Agricultura e da FAO, indicam que o rebanho nacional de asininos caiu cerca de 94% em menos de três décadas. Em 1997, o país tinha aproximadamente 1,3 milhão de jumentos. Em 2025, o número foi estimado em pouco mais de 78 mil.
A principal causa da redução é o abate para extração da pele, usada na produção do ejiao, um composto feito de colágeno amplamente consumido na China. Entre 2018 e 2023, cerca de 248 mil jumentos foram abatidos no Brasil, média superior a 100 animais por dia. Segundo organizações internacionais, a demanda global pelo produto exige o sacrifício de milhões de jumentos por ano.
A pressão já levou países africanos a medidas drásticas. Em 2024, a União Africana decretou moratória de 15 anos para o abate desses animais. No Brasil, apesar de iniciativas locais de proteção, uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região reconheceu, em 2025, a legalidade do abate.
Além do impacto ambiental, estudos conduzidos pela Ufal e publicados em revistas científicas internacionais apontam riscos sanitários. Pesquisadores identificaram más condições de saúde, sinais de maus-tratos e potencial de transmissão de zoonoses em animais destinados ao abate, agravados pela baixa fiscalização.
Alternativas para evitar o desaparecimento
Uma das estratégias em estudo para reduzir o abate é a valorização econômica do animal vivo. Pesquisas desenvolvidas na Ufape, em Pernambuco, avaliam o uso do leite de jumenta em UTIs neonatais e bancos de leite, devido à sua composição próxima à do leite humano e menor potencial alergênico.
Outras frentes incluem pesquisas em biotecnologia conduzidas na Universidade Federal do Paraná (UFPR), que buscam produzir colágeno em laboratório sem o uso de animais, e iniciativas acadêmicas voltadas à preservação do patrimônio genético dos jumentos brasileiros.
Introduzidos no Brasil no século XVI, os jumentos tiveram papel central no transporte, na agricultura e na ocupação do território. Hoje, tratados como excedentes, correm o risco de desaparecer justamente quando a ciência brasileira começa a oferecer caminhos concretos para sua preservação.
Por Raony Salvador, na Revista Fórum, republicado pelo site Destaque Notícias




