Depois de meses de acolhimento, cuidados e articulação da rede de proteção social de Aracaju, duas irmãs, de 12 e 14 anos, finalmente chegaram a Portugal nesta quarta-feira, 26, para reencontrar a mãe e iniciar uma nova etapa de suas vidas. A trajetória das adolescentes foi acompanhada pela Prefeitura de Aracaju, por meio da Secretaria da Família e da Assistência Social (Semfas), desde o acolhimento até a concretização da viagem.
O reencontro, no entanto, foi precedido por uma despedida marcada por lágrimas, abraços e expectativa. Depois de meses acompanhadas pelas equipes do Serviço de Acolhimento Institucional Caçula Barreto e das Casas Lares, as adolescentes deixaram Aracaju rumo a Portugal, onde foram recebidas pela mãe.
A história das duas meninas começou muito antes da chegada às unidades de acolhimento. Nascidas no Brasil, elas viveram parte da infância em Portugal, para onde foram levadas pela mãe. Anos depois, retornaram ao Brasil e passaram a morar com o pai. Diante de uma situação de violação de direitos, as irmãs foram acolhidas no início de 2026, inicialmente no Serviço de Acolhimento Institucional Caçula Barreto.
Por serem irmãs, posteriormente foram encaminhadas para as Casas Lares, equipamento que tem, entre seus objetivos, preservar os vínculos entre irmãos. A chegada ocorreu em abril deste ano. Enquanto recebiam cuidados e acompanhamento diário, também avançava a articulação necessária para que pudessem retornar ao convívio materno.
Um caminho de proteção e esperança
O desejo de voltar para a mãe, que mora em Portugal, acompanhou as adolescentes durante o período de acolhimento. A mãe também manifestava interesse em recebê-las novamente, mas a distância entre os dois países exigiu uma série de procedimentos e articulações junto ao Judiciário para viabilizar a transferência.
De acordo com a coordenadora das Casas Lares, Sanolli Gonzaga, o processo começou a ser conduzido desde a chegada das meninas à unidade. “Elas vieram para as Casas Lares em abril de 2026 e, desde então, já vinha acontecendo todo o trâmite junto ao Judiciário com relação ao retorno delas para a mãe, que sempre teve interesse. Foi todo um processo para que se conseguisse efetivar essa transferência agora”, explicou.
A chegada ao acolhimento não foi simples para as adolescentes. Uma delas conta que chorava durante a noite e teve dificuldades para se adaptar inicialmente à nova rotina. A outra também atravessou um período emocionalmente delicado.
Com o passar do tempo, porém, o acolhimento também se tornou um espaço de cuidado e segurança. Ao recordar a experiência, uma das irmãs reconhece o atendimento recebido pelas equipes.
“A equipe das Casas Lares e do Caçula são perfeitos, maravilhosos. Nos acolheram super bem, foram bastante atenciosos com a gente, receberam a gente de braços abertos e deram tudo o que a gente precisava. Nunca faltou nada”, afirmou.
A irmã mais nova também destacou a sensação de segurança encontrada durante o período em que esteve acolhida. “Eu gostei das pessoas, gostei do acolhimento. Eu me senti protegida, acolhida com eles”, pontuou.
Um vínculo que ficou
Os meses vividos nas unidades de acolhimento também foram marcados pela construção de vínculos entre as adolescentes e os profissionais. Por isso, quando chegou o momento da despedida, a emoção tomou conta de quem acompanhou a trajetória das irmãs desde a chegada a Aracaju.
A assistente administrativa das Casas Lares, Valéria Nascimento, conta que a equipe compartilhou cada etapa dessa história. “Passar por esse processo com elas, desde o primeiro dia do acolhimento até o dia da despedida, foi de emoções muito intensas. A equipe viveu junto cada notícia, cada esperança e agora está vivendo a concretização dessa viagem”, relatou.
Para Valéria, a despedida deixa saudade, mas também a sensação de ter acompanhado uma mudança importante na vida das adolescentes. “Parece que é o filho da gente. Essa sensação vai deixar muita saudade, porque elas são meninas muito incríveis”, afirmou.
A assistente social das Casas Lares, Michelle Marry, também acompanhou as irmãs desde a transferência do Caçula Barreto. Para ela, a viagem representa a concretização de um desejo que as adolescentes carregavam desde o início do acolhimento. “Estou profundamente emocionada de ter acompanhado, desde a transferência do Caçula para as Casas Lares, essas meninas com seus sonhos de voltar a residir com a mãe. Com muita luta e com a participação do Tribunal de Justiça, esse sonho será realizado”, destacou.
Segundo Michelle, a despedida também representa a concretização de um dos principais objetivos do trabalho desenvolvido pela rede de proteção: garantir o direito à convivência familiar. “Vai nos deixar muita saudade, mas com a sensação do dever cumprido na garantia de direitos de crianças e adolescentes, da convivência familiar”, completou.
Um imprevisto no caminho
Quando chegou o momento tão esperado, porém, a viagem ainda reservava um último desafio. Nesta segunda-feira, 24, as adolescentes chegaram ao Aeroporto de Aracaju por volta das 14h, com embarque previsto para o fim da tarde. Um contratempo relacionado aos procedimentos da viagem, no entanto, impediu que elas embarcassem naquele primeiro voo.
A equipe buscou alternativas ainda naquele momento. Como o itinerário previa conexão em Salvador, foram realizadas novas tratativas para tentar viabilizar o embarque a partir da capital baiana. Um veículo foi disponibilizado para levar as meninas até Salvador, mas, mesmo na capital baiana, não foi possível concluir a viagem como inicialmente planejado.
As adolescentes retornaram a Aracaju, enquanto as equipes continuaram buscando uma solução para garantir o embarque. Diante do imprevisto, a coordenação das Casas Lares, o setor de assistência social e a equipe responsável pela logística da Prefeitura reorganizaram os procedimentos da viagem. Novas providências foram adotadas e, no dia 25, o voo foi remarcado.
Desta vez, um novo deslocamento foi organizado até Salvador. Por volta das 20h40, as irmãs finalmente embarcaram rumo a Portugal.
O abraço que elas esperavam
Na manhã desta quarta-feira, 26, depois de toda a espera, das despedidas, das mudanças de planos e da mobilização das equipes, chegou a notícia mais aguardada: as meninas haviam chegado a Lisboa.
Pouco depois do desembarque, elas enviaram notícias para quem havia acompanhado sua trajetória em Aracaju. Estavam bem, emocionadas e felizes. Finalmente, estavam novamente nos braços da mãe.
Antes de partir, a irmã mais nova havia contado o que pretendia fazer assim que chegasse a Portugal. “A primeira coisa que eu vou fazer é chorar nos braços da minha mãe”, disse.
E foi assim que um desejo anunciado ainda em Aracaju ganhou vida do outro lado do oceano. Entre abraços, lágrimas e felicidade, as duas reencontraram a mãe e começaram a escrever um novo capítulo de suas histórias.
Agora, os sonhos também apontam para o futuro. Uma delas quer continuar os estudos, aprimorar o inglês e o russo e seguir em frente. A outra sonha em ser comissária de bordo, construir sua própria mansão e conquistar tudo aquilo que imagina para a vida adulta.
Mais do que uma viagem, a chegada a Portugal representa o encerramento de um ciclo de acolhimento e o início de uma nova etapa de convivência familiar. Para as equipes que acompanharam cada passo, ficam as saudades, as memórias e a certeza de que o trabalho desenvolvido possibilitou a concretização de um desejo que acompanhou as adolescentes durante meses: voltar para casa e reencontrar a mãe.
Depois de uma trajetória marcada por desafios, o desfecho finalmente chegou: duas irmãs, protegidas e cuidadas pela rede de proteção social, estão novamente junto da mãe e têm diante de si a oportunidade de construir novos caminhos e seguir seus sonhos.
Fonte: PMA




