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Bispo do Rosário: o sergipano que transformou dor e exclusão em arte universal

A trajetória do artista revela como o confinamento e a marginalização deram origem a uma das obras mais singulares da arte contemporânea

Por Redação Sergipe Notícias Publicado em 26/01/2026 às 09:50
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Bispo do Rosário: o sergipano que transformou dor e exclusão em arte universal

Um artista sergipano que se destaca hoje entre os nomes mais importantes da arte contemporânea de todo o mundo na atualidade, transformando em obras marcantes as vivências de uma trajetória marcada pela dor, pela exclusão social e por formas equivocadas de lidar com a saúde mental. A história do sergipano Arthur Bispo do Rosário, passa pelos quase 30 anos que ficou internado na antiga Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, mas também pelo tempo que serviu à Marinha do Brasil e pelos primeiros anos de sua vida, em Japaratuba, às margens do rio Cotinguiba. 

 

“Arthur Bispo do Rosário é uma das figuras mais emblemáticas das artes plásticas ligadas a Sergipe, mesmo tendo desenvolvido praticamente toda a sua produção fora do estado. Sua vida foi atravessada pela exclusão social e institucional, mas também por uma potência criadora, que transformou o confinamento em espaço de produção artística. A sua importância reside no fato de ser um artista único, cuja obra rompe com padrões acadêmicos e amplia a compreensão do que é arte. Ele representa a potência criativa sergipana, mesmo em contextos adversos, e simboliza resistência e a capacidade de transformar dor e exclusão em expressão artística”, definiu a museóloga Sayonara Viana, diretora do Memorial de Sergipe Professor Jouberto Uchôa.

 

Suas obras já foram mostradas em mais de 120 exposições individuais e coletivas no Brasil, no Japão, nos Estados Unidos e em países da Europa e da América Latina. Uma das mais importantes foi a da Bienal de Veneza (Itália), em 1995, que consolidou Bispo do Rosário como um dos grandes nomes da arte mundial. O reconhecimento ocorreu de forma gradual, quando críticos e curadores passaram a olhar sua produção para além da condição de paciente psiquiátrico”, destacou Sayonara.

 

A “missão divina”

 

Ainda existem dúvidas sobre a real data do nascimento de Arthur, que tem duas prováveis datas registradas em documentos: 14 de maio de 1909, de acordo com a Marinha, e 16 de março de 1911,  conforme a companhia Light, do Rio, onde Bispo trabalhou por quatro anos. O que se sabe é que ele viveu em Japaratuba até os 14 anos, quando Bispo entrou na antiga Escola de Aprendizes Marinheiros, em Aracaju, e foi transferido pouco tempo depois para o Rio, onde serviu como marinheiro. Oito anos depois, foi expulso da corporação por indisciplina e passou a trabalhar na manutenção dos bondes da Light, até sofrer um acidente de trabalho que comprometeu um de seus pés. 

 

Às vésperas do Natal de 1938, enquanto morava na casa de um advogado, Arthur teve sua primeira crise de esquizofrenia e paranoia, ao dizer a todos que teve uma visão do Apocalipse e que teria vindo dos céus, enviado como “aquele que veio julgar os vivos e os mortos”. Após se apresentar em um mosteiro católico, ele foi internado no Hospital Psiquiátrico da Praia Vermelha e de lá mandado para a Juliano Moreira. Após alguns períodos de reabilitação, prestando serviços para casas de família e até para uma clínica pediátrica, Arthur foi internado definitivamente na Juliano Moreira em 1964. 

 

Foi nesta época em que o sergipano começou a produzir as obras que chamariam a atenção do mundo. Guiado por “vozes” que lhe ordenaram fazer uma espécie de “inventário” do mundo para ser apresentado a Deus durante o Juízo Final, ele trancou-se em sua cela durante sete anos e começou a bordar e costurar uniformes, mantos, roupas, faixas, painéis e estandartes com nomes, datas, palavras e símbolos, além de construir vitrines com objetos catalogados e representações de carruagens, barcos e veleiros. Para isso, utilizava o bordado, a costura, a assemblage [montagem] e a organização de objetos, reaproveitando materiais como tecidos, linhas, uniformes, talheres, sapatos e garrafas.  

 

“A sua produção está relacionada à sua experiência psíquica, especialmente à missão que ele acreditava ter recebido de representar o mundo para apresentá-lo a Deus. No entanto, é fundamental compreender que sua obra vai além do adoecimento, e não pode ser reduzida a isso. Entre os temas recorrentes de suas obras, estão a catalogação do mundo, a memória, a religiosidade, a identidade, o cotidiano, as instituições de poder e a própria experiência do confinamento”, frisa Sayonara Viana. 

 

As primeiras imagens das obras de Bispo do Rosário apareceram para o grande público em 1980, durante uma reportagem do programa Fantástico, da TV Globo, sobre as más condições de vida e de estrutura da Colônia Juliano Moreira. No mesmo ano, o psicanalista Hugo Denizart consegue gravar uma longa entrevista com o paciente, no qual ele fala de sua “missão divina” e explica as suas peças e confecções. A partir daí, surgiu o filme O Prisioneiro da Passagem: Arthur Bispo do Rosário, lançado em 1982. 

 

Na vanguarda da arte

 

No mesmo ano, o crítico de arte Frederico Morais inclui os principais trabalhos de Bispo em uma exposição no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), comparando sua obra a nomes da arte de vanguarda mundial, como o do francês Marcel Duchamp (1887-1968). A partir daí, seguiram-se os convites para que os trabalhos fossem apresentados em outras exposições no Rio e em outras cidades brasileiras.

 

Arthur presenciou apenas uma parte deste reconhecimento em vida: com problemas respiratórios, ele morreu em 5 de julho de 1989 no antigo Hospital Jurandyr Manfredini, dentro da Colônia Juliano Moreira. Em janeiro de 2004, a partir de uma mobilização que envolveu movimentos e entidades culturais sergipanas, seus restos mortais foram trasladados para Japaratuba e enterrados sob uma estátua em sua homenagem. Nela, foi gravada a frase: “Pise forte neste chão. Você está na terra de Arthur Bispo do Rosário”. 

 

Todo o acervo foi tombado em 1992 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural do Rio de Janeiro (Inepac) e está preservado no Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea, que funciona na antiga Colônia Juliano Moreira, hoje transformado em um circuito cultural mantido pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Em 1996, foi lançada a biografia Arthur Bispo do Rosario: O senhor do labirinto, da jornalista Luciana Hidalgo. Considerado um dos mais completos trabalhos sobre o artista sergipano, o livro ganhou o Prêmio Jabuti daquele ano e foi transformado no filme “O Senhor do Labirinto”, de 2010, que teve todas as suas gravações realizadas em Sergipe. 

 

No Memorial de Sergipe

 

A trajetória de Bispo do Rosário, assim como a importância de sua obra artística, estão retratados no Memorial de Sergipe Professor Jouberto Uchôa, através de um vídeo exibido na sala Povos Escravizados, e de livros pertencentes ao acervo da Biblioteca Lourival Baptista. Ele também está retratado em uma ilustração na fachada do Memorial, assinada por Cláudia Nên. 

 

O Memorial de Sergipe Prof. Jouberto Uchôa fica na Orla da Atalaia, ao lado da Praça de Eventos. Ele funciona de terça a sábado, das 10h às 16h. Outras informações podem ser encontradas no site https://www.memorialdesergipe.com.br/

 

Autor: Gabriel Damásio

Fonte: Asscom Unit

 

O sergipano Arthur Bispo do Rosário produziu suas obras ao longo dos quase 50 anos de internações na Colônia Juliano Moreira, no Rio (Divulgação/Itaú Cultural via Agência Brasil)

 

“O grande veleiro”, uma das obras mais famosas de Bispo do Rosário (Divulgação/Itaú Cultural via Agência Brasil)

 

Estátua erguida em homenagem a Bispo do Rosário em sua cidade natal, Japaratuba (Raimundo Coutinho - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0)

 

Fachada do Memorial de Sergipe, em Aracaju, que tem uma ilustração alusiva a Bispo do Rosário (Divulgação/Memorial de Sergipe)

 

Detalhe da ilustração sobre Bispo do Rosário, feita por Cláudia Nên (Divulgação/Memorial de Sergipe)

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