O mercado de trabalho no Brasil vive um momento “mais exuberante das últimas três décadas”, como já definiu o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo. Estes dados são corroborados pelos números de emprego apurados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O índice de desocupação chegou a 5,2% da força de trabalho no trimestre entre setembro e novembro, o que é a menor taxa já registrada desde o início da pesquisa, em 2012. A taxa já vinha de uma sequência de quedas que começou no trimestre de janeiro a março, quando estava em 7%.
O resultado referente ao fechamento do ano, dezembro, só será divulgado no fim deste mês. No entanto, o cenário do mercado de trabalho é comemorado pela área econômica do governo, que também cita a menor desocupação da série, o recorde de empregados com carteira assinada no setor privado, que somou 39,4 milhões, e a alta da renda média real do trabalhador, que chegou a R$ 3.544, com crescimento de 7,8% entre 2023 e 2025. Outro fator apontado é o menor contingente de pessoas desocupadas da série histórica, com o país registrando cerca de 5,6 milhões de pessoas buscando trabalho. Além disso, a população ocupada também se mantém em um nível elevado, atingindo igualmente seu recorde na Pnad Contínua: 103 milhões de pessoas ocupadas.
Para o economista e professor Rodrigo Rocha, dos cursos de Administração, Ciências Contábeis e pós-graduação Lato Sensu da Universidade Tiradentes (Unit), o quadro é um indicativo de um mercado aquecido e ‘apertado’. “A menção à exuberância é pertinente, porque a melhora ocorre mesmo sob um contexto de juros altos, que teoricamente desacelerariam a atividade econômica e, consequentemente, o emprego. O mercado de trabalho tem demonstrado uma dinâmica própria e surpreendente, superando as expectativas e projeções de desaceleração que eram feitas por analistas devido à política monetária restritiva”, diz Rodrigo.
Ele se refere ao estágio atual da Taxa Selic de juros, definido em 15% ao ano pela última reunião do Comitê de Política Monetária do BC (Copom), em dezembro, como parte de uma estratégia para manter o controle da inflação no país. E acrescenta que, “apesar de um choque na taxa de juros para conter a inflação, o mercado de trabalho continua a absorver a força de trabalho, indicando um descolamento ou um atraso dos efeitos da política monetária restritiva sobre a dinâmica do emprego”.
O professor avalia que o cenário demonstra uma absorção considerável da força de trabalho pela economia, que se justifica pela continuidade do crescimento da população ocupada, que tem sido impulsionado pela resiliência da atividade econômica em diversos setores. O principal deles é o de Serviços, que inclui áreas como educação, saúde, e administração pública. O Comércio e a Logística também estão em forte ascensão, impulsionados pelo e-commerce, pelo aumento do consumo e pelas festas de fim de ano. A Agropecuária e a Construção também têm registrado um bom desempenho em termos de ocupação.
“De maneira geral, esses setores têm puxado o crescimento do emprego formal e informal. Outro fator é a desaceleração da busca por trabalho por parte de algumas parcelas da população, o que, em termos técnicos, contribui para a redução da taxa de desemprego, embora essa interpretação exija cautela. No entanto, o crescimento recorde no número de trabalhadores com carteira assinada sugere que o avanço é estruturalmente positivo, e não apenas um reflexo do desincentivo à procura”, afirma Rocha.
Por outro lado, a taxa de informalidade do mercado permanece em cerca de 37,7% da população ocupada, o que sugere que parte dessa ocupação é impulsionada por trabalhos sem vínculo formal. Na visão do economista, isso levanta questões sobre a qualidade de todos os postos de trabalho gerados. “Portanto, a ‘exuberância’ é inegável em termos de volume e taxa de desocupação, mas a discussão sobre a qualidade e a sustentabilidade plena desses postos, especialmente os informais, ainda permanece”, ressalta o economista.
Juros e inflação
Para o mercado, a estratégia de manter os juros altos para conter a inflação vem dando certo. Nesta sexta-feira, 9, o IBGE divulgou que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), índice oficial de inflação, fechou o ano de 2025 com alta acumulada de 4,26% em 2025, dentro da meta de 4,5% estipulada pelo governo. A justificativa do BC para é de que “os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, seguem mais elevados do que o usual”, e que tais riscos são influenciados principalmente pelo cenário de instabilidade na conjuntura e nas condições financeiras globais, o qual “exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica”.
O professor Rodrigo Rocha cita que a ‘exuberância’ do mercado de trabalho é vista pelo próprio BC como um fator de pressão inflacionária. Isto porquê, segundo ele, o aumento da demanda por mão de obra pode gerar um crescimento salarial mais forte, o que, por sua vez, pode realimentar a inflação e justificaria a manutenção da Selic em níveis altos, para provocar uma desaceleração na atividade econômica, que contenha da inflação, mantendo-a dentro das metas.
“Dessa forma, a previsão econômica é complexa. Por um lado, o emprego e a renda sustentam um crescimento do PIB maior do que o inicialmente esperado. Por outro, o BC precisa avaliar o quanto esse dinamismo do emprego pode forçar o aumento da taxa básica de juros, que hoje é a ferramenta principal para ancorar as expectativas de inflação e garantir a sustentabilidade do crescimento”, considera o economista.
Apesar destes receios, a perspectiva é de que o mercado de trabalho continue aquecido em 2026 e, ao mesmo tempo, que a taxa de juros comece a cair gradualmente, mas mantendo a inflação controlada. O professor avalia que a manutenção deste cenário exige que a taxa de juros comece a recuar, reduzindo o atual impacto negativo no crédito e nos investimentos. “O principal desafio para 2026 não será apenas a quantidade de postos de trabalho, mas a qualidade da ocupação. Para que o baixo desemprego seja sustentável e beneficie amplamente a população, o país precisará continuar gerando empregos formais, com carteira assinada, e aumentando o nível de produtividade. Assim, o baixo desemprego pode continuar, mas o foco da discussão deve migrar para o pleno emprego com qualidade”, concluiu Rodrigo.
Autor: Gabriel Damásio
Fonte: Asscom Unit
A criação de vagas de trabalho e o baixo desemprego, mesmo com os juros altos, formam um cenário atribuído à resiliência da atividade econômica em diversos setores (José Cruz/Agência Brasil)




