O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI do Crime Organizado, afirmou que manteria as conclusões apresentadas no relatório final da comissão, incluindo pedidos de indiciamento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em entrevista ao Jornal da Manhã, da Jovem Pan Aracaju, o parlamentar foi questionado sobre Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes e respondeu:
“Indiciaria com toda certeza. Com as ferramentas disponíveis, eu faria exatamente a mesma coisa”.
Ao comentar a repercussão do relatório, o senador avaliou que há críticas sem leitura do conteúdo.
“É muita gente falando sobre o relatório sem fazer a mínima leitura dele. As pessoas opinam sem conhecer o conteúdo, sem entender as limitações que nós enfrentamos e as escolhas técnicas que foram feitas”, disse.
Relator relata limitações e interferências
Durante a entrevista, Vieira descreveu o que classificou como dificuldades enfrentadas pela comissão ao longo dos trabalhos.
“A gente fez uma escolha técnica, mas dentro de um ambiente extremamente adverso. Houve limitação severa de recursos. A Polícia Federal não cedeu o pessoal adequado, o Coaf não cedeu, a Receita não cedeu”, afirmou.
Segundo o senador, houve interferências externas no andamento da CPI.
“Muito por conta da pressão de ministros do Supremo Federal, houve bloqueios de depoimentos, bloqueio de quebra de sigilo. Houve interferência, sim. Houve pressão, sim. E isso impacta qualquer investigação”, declarou.
Ele explicou que, diante desse cenário, a comissão optou por priorizar um diagnóstico mais amplo.
“A escolha foi fazer e fizemos um levantamento completo da situação da segurança pública no Brasil. Está tudo lá: as facções, as origens, como atuam, onde o Estado falha”, observou.
Ainda segundo Vieira, “o diagnóstico é muito claro, muito direto: falta vontade política para enfrentar o crime no Brasil. Não é falta de conhecimento, não é falta de ferramenta – é falta de decisão”.
Propostas da CPI e críticas ao governo
O senador também mencionou propostas apresentadas no relatório que não avançaram.
“A gente apresentou o reforço orçamentário imediato da Polícia Federal. Para ter FICOs funcionando no Brasil inteiro, para ter tecnologia, para ter capacidade investigativa de verdade. Um investimento de R$ 1 bilhão e 600”, afirmou.
Sobre a votação, acrescentou:
“Foi rejeitada por 6 a 4, graças à interferência direta do governo Lula. A gente tem total condição de fazer esse investimento, mas não há vontade”, lamentou.
Diferença entre crimes comuns e de responsabilidade
O senador sergipano também explicou os critérios adotados para os indiciamentos.
“Quando você chega na parte de indiciamentos, você tem que separar o que é crime comum e o que é crime de responsabilidade. Crime comum exige um arcabouço de provas muito maior”, disse, exemplificando o caso envolvendo o Banco Master e o BRB, com menção ao governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha.
“Eu tenho informações que apontam uma transação muito complicada, baseada em documentos falsos. Tenho idas e vindas de interesse político muito intenso, favorável ao banco. Tenho o governador, por meio de escritório da família, recebendo dezenas de milhões de reais. Esses fatos estão todos no relatório. Mas eu posso concluir que há corrupção? Não. E eu não posso fazer isso de forma irresponsável”, afirmou.
“Tem focinho de porco, tem rabo de porco, mas para dizer que é porco eu tenho que pegar o bicho. Eu tenho que provar. Porque indiciamento é coisa séria”, completou.
Declarações sobre ministros do STF
Ao tratar dos ministros do Supremo, o senador afirmou que, em sua avaliação, há elementos que justificam o enquadramento por crime de responsabilidade.
“Quando a gente vai para o crime de responsabilidade, a gente tem uma clareza muito grande de fatos comprovados. Não é suposição, não é indício frágil. É fato documentado”, declarou Alessandro, citando viagens de ministros e contratos milionários.
“As caronas em jatinhos estão comprovadas. Os contratos milionários com familiares estão comprovados. O benefício direto aos ministros está comprovado. E mais: reconhecido por eles em notas públicas”, justificou o senador, que foi mais enfático sobre Alexandre de Moraes.
“Você não tem uma contraprestação compatível com os valores. Mesmo nos padrões mais elásticos de Brasília, isso não se sustenta. Não se justifica. Se você pega bancas que trabalharam em milhares de casos, a remuneração é muito menor do que a recebida por familiares do ministro. Então, quando você junta tudo isso, a conclusão é técnica”, salientou.
“Na minha opinião, e na opinião de mais quatro senadores, está configurado o crime de responsabilidade. E por isso eu faço o indiciamento. Foi uma escolha técnica, não política”, acrescentou.
Resposta a pedido de investigação
O senador também comentou o pedido apresentado por Gilmar Mendes para que ele seja investigado por abuso de autoridade.
“Não tenho nenhum medo. Nenhum. Já fiz minha resposta, não aguardei nada”, afirmou o senador, que acrescentou:
“No dia anterior ele fez ofensas e ameaças. No dia seguinte, formalizou um pedido para que o procurador-geral me processe por abuso de autoridade”.
“Esse sistema que domina o Brasil há muito tempo cria processos e engaveta processos, para abrir a gaveta no momento oportuno. Isso é conhecido”, lembrou Alessandro.
“Você vê uma tentativa patética de me intimidar, de me constranger, de mandar recado: ‘não se mete aqui’. É uma conduta que já passou muito do limite do ridículo”, concluiu.
Declaração final
Ao final da entrevista, o senador Alessandro Vieira comentou sua atuação política.
“Eu não fui a Brasília para dar tapinhas nas costas. Não fui para fazer esquema. Não fui para ficar rico. Eu não fui para isso. Eu fui para mostrar que o Brasil precisa mudar. Fui para apontar onde estão os grandes problemas. E vou continuar fazendo isso – com pressão, sem pressão, com ameaça ou sem ameaça”, concluiu.
Outro lado
O Hora News não localizou manifestações dos ministros citados até a publicação desta matéria.
Fonte: Horas News




