Por muito tempo, a questão parecia objetiva: em que fase da vida uma pessoa passa a ser considerada idosa? Para a maioria, a resposta surge quase automaticamente aos 60 anos, idade adotada por legislações, políticas públicas e organismos internacionais. No entanto, à medida que a ciência avança na compreensão do envelhecimento humano, esse limite rígido começa a perder força. Atualmente, envelhecer não é entendido como um acontecimento isolado nem como um rótulo uniforme, mas como um processo contínuo, multifacetado e profundamente individual.
De acordo com o professor da Universidade Tiradentes (Unit) e coordenador do Laboratório de Biociências da Motricidade Humana (LABIMH), Estélio Dantas, o envelhecimento deve ser analisado como um fenômeno multifatorial, influenciado por componentes biológicos, genéticos, comportamentais e sociais. “O envelhecer não pode ser resumido ao número de anos vividos. Trata-se de um conjunto de adaptações progressivas do organismo, que ocorrem em velocidades distintas entre as pessoas. Essa compreensão amplia o debate e questiona a noção de que a velhice se inicia em uma idade fixa para todos”, afirma.
Idade cronológica x idade biológica
Sob a ótica legal e social, a idade cronológica continua sendo um critério essencial. É ela que orienta a concessão de direitos, benefícios previdenciários e políticas públicas voltadas à população idosa. No Brasil, por exemplo, o Estatuto da Pessoa Idosa considera os 60 anos como referência, enquanto a aposentadoria compulsória no serviço público ocorre aos 75. Esses parâmetros cumprem uma função administrativa importante, mas não explicam como cada indivíduo está envelhecendo na prática.
“É nesse contexto que a ciência introduz o conceito de idade biológica. Diferentemente da idade registrada em documentos, ela avalia o funcionamento real do organismo, levando em conta fatores como capacidade funcional, saúde metabólica, desempenho cognitivo e nível de autonomia. Pessoas com a mesma idade cronológica podem apresentar condições físicas, mentais e funcionais completamente distintas”, destaca Estélio.
Segundo Estélio Dantas, essa diferenciação é essencial para uma compreensão mais precisa e justa do envelhecimento. “A idade biológica permite identificar se o processo ocorre de forma fisiológica, conhecida como senescência, ou se há um envelhecimento acelerado e patológico, associado à senilidade, com maior risco de doenças crônicas e perdas funcionais”, explica. Essa abordagem está em consonância com a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, que prioriza funcionalidade, autonomia e participação social, em vez de apenas a idade cronológica.
O corpo ao longo do envelhecimento
O ritmo do envelhecimento resulta de transformações integradas em diferentes sistemas do organismo. No sistema nervoso central, há alterações na plasticidade neural, na velocidade de processamento das informações e na regulação de neurotransmissores, afetando cognição, humor e controle motor. “Essas mudanças não ocorrem de maneira uniforme e podem ser moduladas ao longo da vida”, observa Estélio.
No sistema cardiovascular, o avanço da idade está associado à redução da elasticidade dos vasos sanguíneos e ao aumento da rigidez arterial, o que eleva o risco de doenças cardiovasculares. Já no sistema musculoesquelético, surgem condições como sarcopenia e dinapenia, mais frequentes em homens, enquanto as mulheres apresentam maior prevalência de osteopenia e osteoporose, aumentando o risco de quedas e fraturas. Alterações sensoriais, como perdas na visão, audição e propriocepção, também impactam diretamente a autonomia funcional.
“Além dos aspectos físicos, fatores emocionais desempenham papel central nesse processo. A depressão, por exemplo, pode tanto acelerar o envelhecimento biológico quanto resultar de perdas funcionais, criando um ciclo que compromete a qualidade de vida. Por isso, o envelhecimento deve ser compreendido de forma integrada, considerando corpo, mente e contexto social”, ressalta Dantas.
Para uma avaliação mais precisa do envelhecimento, a ciência utiliza um conjunto avançado de marcadores biológicos, moleculares e funcionais. Entre os mais sofisticados estão os chamados relógios epigenéticos, que analisam padrões de metilação do DNA e permitem estimar a idade biológica de células e tecidos com alto grau de precisão, por meio de modelos baseados em Inteligência Artificial.
“Outros marcadores relevantes incluem o encurtamento dos telômeros, a presença de células senescentes, falhas nos mecanismos de reparo do DNA e disfunções mitocondriais, considerados hoje pilares centrais da biologia do envelhecimento. Exames bioquímicos também auxiliam na identificação do estado de inflamação crônica de baixo grau, conhecido como inflammaging, por meio da dosagem de proteínas inflamatórias e indicadores de estresse oxidativo”, explica. No campo funcional, testes de força muscular, velocidade da marcha, cognição, composição corporal e saúde sensorial avaliam a chamada capacidade intrínseca do indivíduo. “Esses indicadores permitem compreender o envelhecimento como um processo mensurável e, sobretudo, passível de intervenção”, afirma.
O papel das mitocôndrias e do cérebro no envelhecer
As mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia celular, exercem papel central no envelhecimento. Com o passar do tempo, sua eficiência diminui, aumentando a produção de espécies reativas de oxigênio e comprometendo os mecanismos de reparo celular, o que favorece o desenvolvimento de doenças crônicas e a perda funcional. Pesquisas realizadas no âmbito do Laboratório de Biociências da Motricidade Humana (LABIMH) da Universidade Tiradentes, vinculado ao Programa de Biociência e Saúde (PBS), em parceria com a Vanderbilt University, têm avançado significativamente na compreensão desses processos.
Esses estudos resultaram em publicações científicas de alto impacto e contribuíram para o desenvolvimento de terapias inovadoras. Um avanço recente foi a liberação, pela Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, dos primeiros fármacos direcionados à disfunção mitocondrial, como o Kygevvi e o Elamipretide, abrindo novas possibilidades para a modulação do envelhecimento biológico.
No cérebro, marcadores como o Brain-Derived Neurotrophic Factor (BDNF), conhecido em português como fator neurotrófico derivado do cérebro, têm ganhado destaque por refletirem a plasticidade neural e a saúde cognitiva. Níveis mais elevados de BDNF estão associados a melhor memória, aprendizagem e resiliência emocional, enquanto sua redução se relaciona ao declínio cognitivo e a transtornos do humor.
As diferenças no envelhecimento entre pessoas com a mesma idade cronológica são explicadas pela interação entre genética e epigenética. Enquanto a genética estabelece predisposições e limites biológicos, a epigenética atua como um modulador sensível ao ambiente e aos hábitos de vida, podendo acelerar ou desacelerar o processo de envelhecimento. “Fatores como alimentação, prática regular de atividade física, qualidade do sono, saúde mental, ambiente social e até o sentido atribuído à própria vida influenciam diretamente os marcadores do envelhecimento biológico”, destaca Estélio Dantas.
Esse conjunto de conhecimentos orienta as pesquisas desenvolvidas pelo Grupo de Trabalho e Pesquisa (GTP) Saúde Física, Mental e Funcional na Pessoa Idosa, vinculado ao LABIMH, e se materializa em iniciativas como o Projeto MASTERFITTS, além de integrar a formação dos estudantes de Medicina da Unit, especialmente nos módulos de Envelhecimento e Neurociências.
Diante disso, faz sentido estabelecer uma idade fixa para definir quem é idoso? Sob a perspectiva científica, a resposta é complexa. Do ponto de vista social e legal, a definição de um marco etário continua sendo necessária para organizar políticas públicas e assegurar direitos. No entanto, biologicamente, essa lógica é limitada e pode reforçar estigmas associados ao envelhecimento. O etarismo, ainda presente em diversos contextos, tende a associar idade avançada à perda de relevância, ignorando experiência, competência e produtividade. Para Estélio, uma abordagem mais alinhada à ciência seria substituir classificações rígidas por critérios baseados em funcionalidade e autonomia. “Envelhecer não é se tornar obsoleto, mas expressar o resultado de trajetórias de vida distintas”, conclui.
Por: Laís Marques
Fonte: Asscom Unit Foto: Dr. Estélio Dantas-professor do curso de Medicina da Unit e coordenador do Laboratório de Biociências da Motricidade Humana (LABIMH)




